21
Jul
08

Wall-E… Nós podemos mudar o mundo…

Sempre que tenho que falar de algum dos nossos filmes do CINESURPRESA, faço uma pesquisa pela net de links que possam ser interessantes para passar para vocês, buscando visões, opiniões diferenciadas. Com Wall-E me deparei com uma grande unanimidade: não encontrei criticas negativas. Assim como a opinião do nosso grupo do 12º encontro, Wall-E está além das criticas negativas. Não existe o que falar mal deste filme. Também compactuo com a opinião de muitos: é bem mais fácil escrever sobre filmes ruins, ou que não gostamos do que falar sobre filmes bons. Imagine então como é difícil falar sobre um filme maravilhoso, perfeito! O que mais dá vontade de escrever, falar sobre filmes assim é:

— Vá ver Wall-E o quanto antes, não perca de modo algum e veja na telona do cinema, não espere sair em locadoras mas, quando sair compre o DVD, vale a pena. Wall-E é simplesmente apaixonante!

O 12º CINESURPRESA foi dia 13 de julho no Cinemark. Como vocês já perceberam o filme escolhido foi Wall-E, que teve uma votação unânime — concorreu com Kung Fu Panda e Hanckok que também estavam passando entre 18 e 19h. Outra unanimidade foi a nota dada ao filme: 10! Com isso Wall-E passou ao primeiro lugar, merecidamente, do nosso ranking. Nosso grupo mais uma vez estava pequeno, devido as férias muitos não puderam estar conosco. Vamos as primeiras opiniões, e mesmo tendo recebido nota 10 de todos, temos sempre a pergunta:

O pior do filme para você?

Deborah: o controle das pessoas, impedindo que vivam de verdade, mas apenas sobrevivam • Eduardo: a esmagada da barata • Ricardo: o piloto automático

Como podemos ver não tem o que falar mal do filme mas, do que ele mostra de ruim, do que pode acontecer com o mundo em que vivemos, se os homens continuarem a ter atitudes egoístas sem pensar no planeta. É ruim: a atitude dos homens, o comodismo pelo avanço da tecnologia, o descaso com o nosso planeta, meio ambiente, a falta de humanidade, de sensibilidade… Wall-E mostra um mundo onde a distância existente entre os homens, é tão grande que um simples ato de acenar com a mão, dar as mãos, um bom dia, um olá, são gestos raros que acabam causando estranheza aos “seres humanos”. Wall-E, é um robô, mas é o mais humano de todos no filme.

E assim temos a grande obra da Pixar e, com certeza, seu melhor filme até o momento. E é um filme de amor, entre Wall-E — Elevador de Detritos Classe Terra, abreviação de “Waste Allocation Load Lifter Earth-Class” — e Eva — Exterminadora de Vegetação Alienígena, “Extra-terrestrial Vegetation Evaluator”. Mas o amor que o filme mostra vai além do amor entre “homem e mulher”. Wall-E fala do amor pela vida, pelo planeta, pelo mundo em que vivemos, pela nossa memória e tantos outros amores. E o filme cativa porque todos estes sentimentos podem ser percebidos no “rosto” deste robozinho.

Como pode um robozinho velho feito para catar lixo ter tantas expressões, tanta sensibilidade?

Neste momento me lembro, já que estamos falamos da Pixar, do primeiro curta de animação feito por eles, de 1986, “Luxor Jr.” Lembro-me como se fosse hoje o dia em que o vi pela primeira vez, em 86 mesmo. Desde então me apaixonei por aquela luminariazinha que tinha todo jeito e sensibilidade de uma criança brincando com seu pai. Nunca me esqueci. É só alguém falar ou eu ver algo da Pixar que o Luxor Jr. me vem a cabeça. Quem não viu pode clicar aqui neste link para ver direto do site da Pixar ou aqui pelo Youtube. Mais a Pixar cresceu muito e a cada novo trabalho vem toda essa inovação, evolução que não é apenas tecnológica, mas de todo o conjunto que compõe a criação, construção e produção de um filme

Wall-E não é apenas uma grande obra do cinema de animação. É um grande filme, e perfeito: roteiro, produção, direção de arte e a trilha, nossa que trilha sonora maravilhosa! Vale a pena procurar e ouvir. Poderíamos também falar por horas dos ângulos, enquadramentos, movimentos de câmera, cenas que fazem com que o espectador se sinta realmente dentro do filme. Exemplo disto temos em muitas cenas, mas desde o início do filme — momento em que apresentam Wall-E para gente — isso já fica claro: a riqueza da linguagem cinematográfica que será usada, desde belas panorâmicas, planos seqüências até closes, detalhes perfeitos. Com isso fica fácil se colocar dentro da história, se emocionar e até de se identificar com alguns dos personagens mesmo sendo eles… robôs… ou uma barata.

Nunca pensei que gostaria de uma barata, mesmo que “animada”. Já vi várias em animações, mas nunca nenhuma me cativou tanto. A relação de Wall-E com sua baratinha de estimação — que se chama Hal em homenagem ao computador HAL de 2001 e também é uma homenagem ao produtor da década de 20 Hal Roach. Essa relação é como a de qualquer pessoa com seu cachorro, gato, enfim, qualquer animal de estimação. Vale prestar atenção nos movimentos desta baratinha e em como esta relação de troca e atenção se dá de forma tão humanizada entre um robô e um inseto. Um momento valioso entre Wall-E e Hal e quando ele manda ela “ficar” — como quando mandamos um cachorro ficar quieto, sentado, parado em um local — a baratinha até “abana o rabinho” e não sai do seu lugar até seu dono, robô, voltar. É fácil gostar desta barata.

Mas o principal em Wall-E: ele faz pensar em muitas coisas que vão mais além da relação homens e animais. E aí entra outra das nossas perguntas: O melhor do filme?

Deborah: O amor, a amizade e a perseverança • Eduardo: A amizade • Ricardo: Wall-E que simboliza tudo isso

E como falamos de se identificar com os personagens: Com quem você se identificou:

Deborah, Eduardo e Ricardo: Wall-E e o Ricardo ainda disse o porque: ele encontrou a essência da vida. Até as máquinas amam…

Por tudo que já foi falado acima, é fácil se identificar com Wall-E. Também me identifiquei com ele, até porque vi entre ele e sua baratinha a minha relação entre eu e meus 3 cachorros, mas também:

• por ele gostar de resgatar sua memória — ao seu modo Wall-E guarda tudo que é importante para sua história atual e sobre seu passado. Desde um cubo mágico, lâmpada comum, sutiã, isqueiro etc até um fita VHS do filme Hello Dolly, que ele vê repetidamente buscando algo que vê no filme, e além dele. Lógico, não vou contar detalhes, perderia a graça.

• também me identifico pela importância que ele dá a sua casa, sua vida, seu mundo e ambiente.

Infelizmente, talvez, muitos se identifiquem pelo lado negativo que mostra o filme, muitas pessoas agem do modo ruim que o Wall-E mostra. E aí esta a sua maior mensagem:

Qual será o nosso futuro se continuarmos cada vez mais buscando no avanço tecnológico, coisas que facilitem nossa vida nos tornando menos ativos, criativos, sensíveis, menos humanos enfim?

Já vivemos em um mundo em que poucos pensam na qualidade de vida, de nossa água, terra, poucos pensam em responsabilidade social e ambiental. Mais que isso: a busca pelos relacionamentos virtuais, e não falo de sexo virtual mas de amizade, é cada vez mais constante. As pessoas hoje têm amigos que nunca viram, nunca se tocaram, nunca trocaram um aperto de mãos, e se trocarem, este tipo de contato será na sua maioria das vezes, em poucos momentos de encontros marcados para que se conheçam. O relacionamento humano é cada vez mais escasso, mais a distância, superficial e sem importância.

Wall-E trata claramente destas questões. Quem não gostou de Wall-E e achou o filme bobo, exagerado, meloso, dramático… deve repensar sua vida e suas atitudes para que não e torne cada vez menos humano e mais máquina.

Qual a cena do filme que você mais gostou?

Deborah: quando Wall-E e Eva juntam as mãos • Eduardo: Wall-E andando e empilhando o lixo • Ricardo: Nós créditos finais quando a Terra recebe finalmente as suas cores reais, verdadeiras…

Qual o melhor figurino?

Deborah e Eduardo: Eva • Ricardo: todos…

A minha cena, seriam duas, se me permitem: a cena em que Wall-E preocupado com a vida de sua baratinha de estimação manda ela “ficar” e a dança espacial de Wall-E e Eva bem ao estilo de Gene Kelly, Fred Astaire e Gingers Rogers. Figurino? Primeiro deixa o explicar o motivo desta pergunta: o Festival de Cinema Cineme-se 2009, terá como tema Figurino, e já estamos no clima do festival. Esta pergunta será feita até o dia do festival começar em 2009.

Alguns devem estranhar e pensar: aonde existe figurino em Wall-E? Mas existe sim! Mesmo o design do robozinho tem figurino: a cores da lataria, os detalhes, a posição destes detalhes, podem ser considerados parte de seu figurino. E temos também as roupas dos humanos presentes no filme. O meu voto para figurino vai para Wall-E. Não por ser o mais bonito, pelo contrário, mas por ser a melhor combinação entre a estética criada e a intenção de emocionar desejada com este personagem.

Entramos agora um pouco em direção de arte. Que é perfeita, como tudo no filme e que junto com a trilha, design em geral nos traz grandes referências visuais e emocionais. Não tem como a gente não lembrar de Charles Chaplin — Carlitos o palhaço mendigo ingênuo, desastrado, sensível e sempre apaixonado, ET — o mesmo estilo de design para olhos, pescoço, proporção de corpo, 2001 uma Odisséia no Espaço, Hello Dolly e como disse antes, Gene Kelly, Fred Astaire e Gingers Rogers. Pode ainda nos remeter a histórias de amor como Romeu e Julieta ou a Dama e o Vagabundo. O mais incrível é que Wall-E fala de tudo isso e é um filme praticamente sem diálogos. As falas estão na direção de arte, no som, na linguagem de câmera, nos gestos.

Com tudo isso não dá para a gente dizer que Wall-E é um filme para o público infantil. Até porque, ainda dentro da direção de arte, as cores não são para crianças. Em sua grande parte Wall-E é composto por cores frias. Poucos são os momentos com muitas cores intensas. O mundo de Wall-E é frio, repletos de cores terrosas, cinzas, cores frias, pastéis, areia, lixo… As cores aparecem no mundo de Wall-E nos créditos finais.

Então fica aqui uma dica: Não saiam até terminar a última letrinha dos créditos. A história continua, ainda em animação, mas em outros e diversos estilos. O desfecho do filme, o futuro de Wall-E e sua amada Eva, é mostrado nos créditos, que é, ainda, uma grande homenagem a história da arte mostrando desde as pinturas rupestres — no filme sendo refeitas pelos novos habitantes da nova Terra — até a mais bela arte moderna atual passando por homenagens diretas a Van Gogh e Monet — sobre Van Gogh a homenagem se inicia já no filme com as “botinhas de Wall-E” e nos créditos alguns personagens do filme habitam telas de van gogh. Ao lado, as botas de van Gogh — que representavam para ele um sentimento igual as botas para Wall-E — e alguns dos quadros de Van Gogh usados no crédito filnal do filme. Então não percam os créditos finais, além de belíssimos, contam o final da história.

Uma frase sobre o filme:

Semmpre há esperança • Deborah Okida

Amor incondicional • Eduardo Ricci

Há sempre um recomeço. Quem semeia um dia colhe • Ricardo Reis

Para mim: a gente colhe aquilo que planta e se torna aquilo que semeia. A semente de nosso futuro está dentro de cada um dos nossos gestos. Depende somente de nós se seremos, felizes, amados e se viveremos em um mundo de lixo ou de flores, paz ou guerra. Não é porque é difícil alcançar, não é porque não depende só da gente, que devemos ser egoístas e não pensar no mundo que nos rodeia. O seu gesto mesmo que único, sozinho, pode “contaminar” outras pessoas e com isso criamos gestos maiores.

Termino falando de duas coisas:

• os cartazes do filme que dariam um papo a parte: observem ao lado a diferença de estilos e propostas de cada um dos cartazes. Desde cartazes que lembram a história do cartazismo no design gráfico como os da primeira fileira — cartazes no estilo art-decó, futuristas, pop — passando pelos com estilo clean, somente com o personagem, e chegando até os mais visuais, modernos, tecnológicos. Poderiam ser usados em uma aula de estilo e design.

• aproveitando a temática do filme coloco aqui, e ficará de forma permanente em nosso blog, o selo da campanha “Nós Podemos – 8 Jeitos de Mudar o Mundo” e espero que cada um pense no seu jeito de mudar o seu mundo e o nosso mundo.

Até o próximo CINESUPRESA em comemoração ao nosso 1º aniversário e que será dia 9 de agosto, sábado no Cineclube da Unisanta, Santos. Quer ir? Me mande um mail clicando aqui.

Escrito por Márcia Okida em 21 de agosto de 2008


3 Respostas para “Wall-E… Nós podemos mudar o mundo…”


  1. Julho 21, 2008 às 11:53 pm

    Infelizmente não pude comparecer ao último Cinesurpresa, mas é certamente uma feliz coincidência que “Wall-E” tenha sido o escolhido, pois conferi o filme logo na estréia.

    Como sempre, a crítica da Márcia tocou em pontos viscerais do filme, mas gostaria de destacar uma certa “citação Matrix” que surge se analisarmos a relação conformista dos humanos com as máquinas e em como os 2 humanos que primeiro saem da “realidade virtual” ficam surpresos com todo o universo que se lhes revela ao acidentalmente desviarem seus olhos da luminosidade da tela holográfica para a luminosidade das estrelas.

    Outro ponto que gostaria de destacar é a escolha de Peter Gabriel para cantar a canção “Down To Earth”. Eu, como assumidamente fã do trabalho do cantor, não poderia deixar isso passar em branco, uma vez que Peter Gabriel foi laureado com muitos prêmios direcionados a bem-feitorias em campanhas ambientais, além de toda sua preocupação artística revelada pelo projeto WOMAD – World of Arts and Music -, que se embasa em fazer música sem se esquecer da conversa gerada por outras formas de arte.

    Como se pode perceber, a palavra-chave de “Wall-E” é ACERTO: desde os mínimos detalhes exigidos para uma animação de sucesso, trancendendo em direção a inovações que nos levam diretamente à reflexão de quem somos… ao nos distanciar de quem somos. Justamente por parecer que estamos tão distante de quem REALMENTE somos: humanos!

  2. Julho 22, 2008 às 12:43 am

    Wall-e é mesmo um marco no cinema de animação… e olha que ele nem fez tanto sucesso no cinema, mas mesmo sem esse sucesso o filme tem a força de um filme do Kubrick. Imperdível mesmo!!!! Bjos a todos!!!

  3. 3 Fabio Machado
    Julho 28, 2008 às 1:09 pm

    Pena que não pude ir neste cinesurpresa…minha vontade de assistir Wall-E triplicou =)

    Excelente análise do filme, comentando pontos importantes sem estragar os detalhes da trama pra quem não assistiu – é preciso manter a surpresa, muitos críticos se esquecem disso…

    Que venha a sessão de aniversário, certamente estarei lá!

    Abraços,
    Fabio Machado


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ranking surpresa

1º lugar: 10,0 - Wall-e

2º lugar: 9,6 - Persépolis

3º lugar: 9,0 - A Duquesa

4º lugar: 9,0 - Tropa de Elite e Ultimato Bourne

5º lugar: 8,9 - StarTrek

6º lugar: 8,8 - A Troca

7º lugar: 8,6 - Era do gelo 3, Piaf e MILK

8º lugar - 8,3 - Meu Nome não é Johnny

9º lugar: 8,2 - Depois da Vida

10º lugar: 8,1 - Mulher Invisível

11º lugar: 7,8 - Chega de Saudade e HairSpray

12º lugar: 7,5 - Onde os Fracos não tem Vez

13º lugar: 7,4 - Os Desafinados

14º lugar: 7,2 - Jogos do Poder

15º lugar: 7,0 - Duro de Matar

16º lugar: 6,8 - 007 Quantum os Solace

17º lugar: 6,4 - Fim dos Tempos

18º lugar: 6,3 - Foi Apenas um Sonho

19º lugar: 5,6 - A Guerra dos Rocha

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